Coluna InFormação #045 – O homem errado

A participação de Winston Churchill na Primeira Guerra Mundial é considerada um grande fracasso. Como Primeiro Lorde do Almirantado da Inglaterra, ele foi o responsável por uma das maiores derrotas do seu país na ocasião, na campanha Gallipolli e Dardanelos. As tropas foram duramente rechaçadas pelos otomanos e a derrota resultou na morte de 50 mil soldados britânicos e franceses. Churchill acabou demitido do almirantado.

Depois de amargar um período de ostracismo entre as duas guerras, aos 65 anos, ele voltou à cena como primeiro-ministro britânico. E, aí, revelou-se como um dos exemplos mais bem acabados de “homem certo, no lugar certo, no momento certo”. Em um período de imensa dificuldade, em que a Inglaterra via-se às voltas com o perigo do domínio imperialista de Adolf Hitler, Churchill encontrou a retórica exata para inspirar o seu povo a lutar na Segunda Guerra Mundial. Uma retórica que impressiona pela sua franqueza e sinceridade. Enquanto hoje alguns governantes – o nosso Jair Bolsonaro e o americano Donald Trump à frente – adotaram como estratégia querer reduzir o tamanho da crise provocada pela pandemia, Churchill foi sincero com os ingleses, ao dizer que só poderia prometer a eles “sangue, suor e lágrimas”.

Se o antes desacreditado Churchill foi, na Segunda Guerra Mundial, na Inglaterra, o “homem certo, no lugar certo, no momento certo”, o ministro da Economia, Paulo Guedes, vai cada vez mais hoje no Brasil parecendo se tornar o “homem errado, no lugar errado, no momento errado”.

Por mais que Bolsonaro tenha se esforçado para transformar a covid-19 numa “gripezinha”, o fato é que a sua pandemia é, sem dúvida, o momento mais desafiador para o planeta depois daquele vivido por Churchill no final da década de 1930 e na primeira metade da década de 1940, quando o mundo viveu a Segunda Guerra Mundial.

E a pandemia acabou por destroçar todas as condições com as quais antes Guedes contava para implementar o seu ideário liberal de recuperação da economia brasileira. Guedes imaginava poder entregar o Brasil ao interesse dos investimentos privados do mundo tornando o país menos burocrático e mais enxuto, reduzindo o Estado ao mínimo. O problema é que se a covid-19 é muito mais que uma “gripezinha” para o organismo de imensa parte das pessoas, o seu efeito de contaminação para a economia do planeta é tanto ou mais devastador.

O fato é que se dissipou completamente algum cenário no qual hoje o Brasil possa atrair a atenção de investidores estrangeiros. A covid simplesmente retraiu até segunda ordem qualquer movimento de investidores estrangeiros. E – embora aqui a culpa não seja de Guedes – o atual governo ainda tratou de ajudar a reduzir ainda mais esse interesse por suas posições ambientais – o governo até pode insistir que nesse ponto é mal compreendido, mas o fato é que a sua imagem externa nesse quesito é péssima e assusta os investidores, isso é fato.

Da mesma forma como ocorre depois das guerras, o país hoje precisa que o Estado, pela ausência do natural investimento privado, torne-se o indutor do desenvolvimento e da recuperação. E isso é o oposto do Estado mínimo desejado por Guedes. Os números mostraram, por exemplo, a força que teve o auxílio emergencial para evitar neste momento uma crise ainda maior que a que estamos vivendo. Diante do óbvio, o pragmatismo político fez Bolsonaro entender que não era mais no Posto Ipiranga que ele iria achar o combustível dos votos. Em um país em crise e carente, esse combustível estava nas seguidas inaugurações em que ele vai aglomerando gente e pavimentando o caminho para tentar a reeleição.

De Posto Ipiranga, Guedes vai cada vez mais se tornando um sobrevivente, que se agarra à boia do cargo. Assim, talvez não caia, talvez permaneça. Mas não é mais por ele que passam as decisões econômicas. Ao entregar ao relator do orçamento, senador Márcio Bittar (MDB-AC), na quarta-feira (16) a tarefa de tentar encontrar recursos para o novo programa social, chame-se ele Renda Brasil ou não, Bolsonaro terminou de rifar Guedes da discussão. No máximo, ele tratará depois de fazer as contas da solução que não será mais dada por ele. No fundo, quando sua equipe diz que para ampliar o programa social ele precisa cortar outros, faz um discurso que até lembra um pouco a promessa de Churchill de “sangue, suor e lágrimas”. Mas, hoje, não é bem esse o discurso que a sociedade quer ouvir.

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