Cerca de 460 indígenas são contaminados com Covid-19; barreiras são montadas para evitar disseminação


A maior quantidade dos casos está na Ilha do Bananal. Uma das barreiras foi construída na aldeia Funil, pelo povo Xerente, no município de Tocantínia. Indígenas fazem barreiras sanitárias para evitar disseminação do novo coronavírus
Reprodução/TV Anhanguera
O novo coronavírus chegou a cinco etnias do Tocantins: Karajá, Javaé, Krahô, Xerente e Apinajé. São cerca de 460 indígenas infectados com a doença, segundo dados do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei-TO) divulgados neste domingo (2). A maior quantidade dos casos está na Ilha do Bananal, que concentra mais de 300 diagnósticos. No total, o estado já registrou nove mortes.
Segundo dados da Funai, o estado tem 15,6 mil indígenas distribuídos em nove etnias.
A segunda região com mais registros é a de Tocantínia, entre o povo Xerente. Preocupados, indígenas continuam com barreiras sanitárias nas entradas das aldeias.
“É preciso que os indígenas tenham acesso à informação confiável, de qualidade, e principalmente, no seu idioma nativo. É importante também que nós tenhamos condições de remover os pacientes graves das aldeias para atenção terciária de forma rápida e eficaz “, argumentou a médica Danuta Naru.
Uma das barreiras foi construída na aldeia Funil, pelo povo Xerente, no município de Tocantínia. Quem não for indígena, não pode entrar no território. A barreira fica a cerca de um quilômetro da comunidade e é uma das estratégias para evitar a disseminação da Covid-19.
Barreiras foram instaladas em outras regiões, como por exemplo, em Lagoa da Confusão. No mês de junho, uma comunidade de indígenas chegou a impedir funcionários da prefeitura da cidade de entrar na aldeia, na Ilha do Bananal.
Bloqueio feito pelos indígenas em acesso de aldeia
Divulgação
Em março, grupos bloquearam entradas de comunidades e montaram uma guarita entre os municípios de Itacajá e Goiatins.
O promotor de Justiça João Edson, que atua na área do povo Xerente, ressaltou a importância dessa vigilância feita pelos próprios indígenas.
“Embora não seja a medida mais adequada, uma vez que a estruturação dessas barreiras, exige treinamento e também a utilização de equipamentos de proteção, têm-se mostrado positiva”, disse.
O jornalista Edivaldo Xerente vive na cidade de Tocantínia e auxilia as aldeias da região. “Tem a TO-010, que corta a área indígena e a TO-342 que vai para Aparecida do Rio Negro. Todas as três saídas, a saída para Palmas, que tem a aldeia Funil, e a saída para Aparecida e Pedro Afonso, que tem a terra indígena Xerente, onde tem a maior população. Então, acaba que essa barreira faz essa fiscalização dos indígenas que vêm da aldeia para a cidade e que vai da cidade para a aldeia”.
Há duas semanas, a Justiça Federal determinou que a União e a Funai entreguem kits de higiene e de alimentação e que tomem providências para agilizar o transporte dos infectados. Também ordenou o envio de médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagens para a Ilha do Bananal. A decisão é do juiz federal Eduardo de Assis Ribeiro Filho, da Vara Federal de Gurupi.
O antropólogo Marcio Santos afirma que o ideal seria que a doença nem sequer tivesse chegado às aldeias.
“As populações indígenas têm muitas concepções sobre saúde e doença, diferentes das nossas, da sociedade ocidental. Para os povos, a própria ideia de um vírus está muito distante da sua cosmologia, da sua maneira de enxergar o mundo. Então, compreender que essa doença é causada por um micro-organismo, principalmente para as pessoas que vivem com menos contato com a sociedade, é um desafio muito grande”.
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