O rap e a arte contra o fascismo

No videoclipe Eu sei o que vocês fizeram nas eleições passadas — lançado hoje —, o rapper de Samambaia Sul Paulo Amaro, 30 anos, faz uma analogia entre o famoso quadro Guernica, do pintor Pablo Picasso, com o momento atual: “Essa obra específica do Picasso estabelece um diálogo direto com a minha: as duas são trabalhos que denunciam os horrores da guerra e a ascensão do fascismo em manifestações e tempos diferentes”. Além do rap e das artes plásticas — ele se formou em Artes Visuais —, a produção de Amaro abraça diversas outras manifestações criativas e revela muito da realidade dos artistas independentes brasileiros neste período de crise.

Por que você escolheu esta obra do Picasso para retratar o momento ?

A história da humanidade é contada através da arte — e Nina Simone dizia que é dever do artista refletir o seu próprio tempo. Em Guernica, Picasso estava refletindo seu tempo, e eu prossigo fazendo o mesmo em Eu Sei o Que Vocês Fizeram Nas Eleições Passadas. Eu gosto de pensar meu trabalho como um diálogo entre a música e as artes visuais. Essa obra específica do Picasso estabelece um diálogo direto com a minha: as duas são trabalhos que denunciam os horrores da guerra e a ascensão do fascismo em manifestações e tempos diferentes. Entregar um projeto conceitualmente amarrado faz parte do meu trabalho enquanto artista. Eu vejo este clipe como uma releitura de Guernica, onde as características estéticas estão presentes em símbolos atuais, como as máscaras, o figurino que flerta com o cubismo e a maquiagem.

Paulo Amaro. Foto: Eric Lamounier

Como está a sua rotina de produção?

Semanas antes de iniciarmos o isolamento social eu havia lançado um EP intitulado Made in Gueto. Com as medidas que foram tomadas, eu cancelei todas as estratégias de lançamento e divulgação do trabalho. Isso foi extremamente doloroso, porém, necessário. Estamos, nesse momento, lutando por vidas, não é? Depois de um mês, vendo meu EP perdendo as forças, cheguei a questionar meu trabalho, minhas escolhas e parei em um lugar de descrença. Eu trabalho com arte, com música, pinturas, ilustrações, tatuagens; sou um artista totalmente independente e tive que parar com tudo! A pergunta era: e agora — como faço para sobreviver? Me senti silenciado e desamparado como nunca!

Você diz que — atualmente — os artistas independentes vêm sendo silenciados no Brasil. De que forma? E como você tem driblado essa realidade que vê?

Eu não sei quando começou, mas sei que existe uma glamourização muito grande da figura do artista. As pessoas ainda fazem uma leitura totalmente errônea da gente, associando arte a fama, a números, a visibilidade — e esquecem daqueles artistas que moram na quebrada, que fazem seu trabalho no corredor de um ônibus ou na estação de metrô. Nesses casos, por que a nomenclatura de artista não nos cabe? Quantas vezes o termo “vagabundo” foi relacionado a mim até mesmo por parentes? Quando falo que estamos sendo silenciados nesse momento, estou falando de artistas que não têm patrocínio, investidores, apoio de nenhuma marca ou empresa. Continuar produzindo, pegando papelões para fazer um cenário e gravar um vídeo com recurso zero foi importante para dizer a mim mesmo que posso não fazer parte dessa bolha de artistas famosos, mas eles não são nem menos e nem mais artistas do que eu ou outros de periferia.

O nome do videoclipe traduz e sintetiza o momento atual de profunda crise?

Esse nome vem daquele clássico filme de terror [Eu Sei o que Vocês Fizeram no verão Passado] — e essa estética de terror e suspense também estão presentes na sonoridade da faixa. O filme basicamente narra a história de quatro jovens que cometem um crime, se livram das provas e vivem como se nada tivesse acontecido — até que tempos depois chega uma carta misteriosa lembrando-os do crime cometido. Minha arte é essa carta: ela sempre fará o papel do vilão que persegue o playboy inconsequente, o terror para a elite privilegiada e respaldada em discursos sobre meritocracia. Hoje temos no topo da hierarquia um homem autoritário e com uma postura totalmente negacionista em relação à pandemia. Crimes contra a saúde pública são cometidos diariamente, enquanto os poderosos minimizam a pandemia chamando-a de “gripezinha”.

Paulo Amaro. Foto: Eric Lamounier

O rap vem em geral permeado de críticas sociais e políticas — e de mensagens contra o machismo e o racismo, por exemplo, e em defesa da diversidade e de outras temáticas cruciais do mundo contemporâneo. Você, por exemplo, carrega também a bandeira LGBTQIA+ em sua arte, não é?

Na verdade, sou um artista gay de periferia. Quando a gente fala sobre a comunidade LGBTQIA+, precisamos sempre lembrar que os recortes dentro dessa sigla são inúmeros. As nossas lutas podem estar associadas, mas acabam sendo lutas diferentes — e é nosso papel também repensar quais são as prioridades dentro da nossa comunidade. O machismo está presente em todos os lugares, não só no universo do rap. Se esse machismo já me torna invisível dentro do rap, imagine para as manas transvestigenere. Artistas como Danna Lisboa, Isis Broken e Alice Guél poderiam falar sobre esse machismo em uma perspectiva muito mais profunda. Na minha concepção, não só a indústria do rap, mas a nossa sociedade em si precisa urgentemente dialogar e obter trocas com outras vivências para discutirmos além das pautas heteronormativas.

Como você usa o poder do rap para lidar com os desafios criados por esta pandemia?

Eu escrevi essa música, mas não tinha nenhuma perspectiva de lançá-la. Parecia impossível fazer algo com ela… até que, assistindo ao clipe de Canto da Liberdade, do artista Caio, uma chavezinha virou. Ele e Felipe Sassi fizeram um trabalho tão rico, profundo e inspirador que aquilo me fez revisitar minha essência como artista. Eu precisava colocar a mão na massa, ressignificar minhas frustrações, provar para mim mesmo que com pouco recurso eu poderia me manter firme produzindo minha arte. A pandemia me colocou em um lugar difícil. Para todos tem sido difícil esse processo de adaptação. O isolamento social acaba acessando lugares desconhecidos e revivendo algumas feridas. Do outro lado da balança, tenho pessoas que sempre estão dispostas a me ajudarem, relembrando minha essência mesmo quando nem eu mesmo consigo vê-la. Tenho um namorado que sempre está disposto, totalmente entregue e cuidadoso com os meus processos de criação. Essa música e clipe nasceram dessa necessidade de refletir o nosso tempo, de me refazer como artista — e esse clipe só pode nascer com apoio do meu namorado, que tem se tornado um produtor para me ajudar, e de um amigo, o videomaker Fabrício Carvalho. É muito mais do que um trabalho do Amaro rapper: é um trampo de todas as possibilidades e vertentes de arte que há em mim e daqueles que acreditam nelas.

A música estará disponível nas maiores plataformas de streaming a partir de amanhã. O videoclipe pode ser acessado no canal do YouTube Amaro.

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