Prefeitura de Formoso decide isolar indígenas da Ilha do Bananal para controlar surto de Covid-19; caciques questionam medida


Caciques afirmam que isolamento foi decidido sem ouvir todas as aldeias e que medida vai prejudicar a compra de alimentos e recebimento de benefícios. São 81 indígenas com coronavírus em aldeias de Formoso do Araguaia. Aldeia Canuanã fica dentro da Ilha do Bananal, no território de Formoso do Araguaia
Polícia Militar/Divulgação
A Secretaria de Saúde de Formoso do Araguaia, na região sul do estado, decidiu estipular isolamento de sete dias nas aldeias do município para tentar controlar o surto de coronavírus entre indígenas. No último fim de semana foram 81 casos de Covid-19 confirmados. Só que os líderes de aldeias reclamam que não foram convidados para reuniões que decidiram pelo isolamento e dizem que a medida vai prejudicar o recebimento de benefícios e até a compra de alimentação para as aldeias.
O último boletim divulgado pelo município mantém os 81 casos registrados entre indígenas no fim de semana. Não há novos diagnósticos, até a manhã desta quarta-feira (1°), ou pacientes graves e mortes. Novos resultados devem sair nos próximos dias, pois uma força-tarefa foi realizada para testar indígenas aldeados que apresentaram sintomas ou tiveram contato com pessoas contaminadas.
A Secretaria de Saúde de Formoso informou ao G1 que está instalando uma barreira sanitária na via que dá acesso às aldeias e a Ilha do Bananal. Segundo o município, foram feitas reuniões com vários seguimentos e representantes dos indígenas e a medida foi tomada para proteger os próprios indígenas.
Apesar disso, o cacique José Tehybi Javaé, da aldeia Canuanã, informou que faltou participação das lideranças na decisão. “O pessoal recebe, começa a receber hoje ou amanhã. Tem que comprar alguma coisa. Chegou só o documento dizendo para ficar uma semana isolado, ninguém comunicou nada. Tem que ir conversar com pessoal para comprar, como que a gente vai ficar sem?”, questionou.
O cacique Darci Javaé, da aldeia São João, também reclamou do confinamento. “Achamos muita falta de respeito porque poderia ter consultado as lideranças, caciques para a gente contribuir. Da forma que fizeram a gente não concorda, inclusive estamos recorrendo ao MPF porque as leis têm que ser para todo mundo”.
O líder indígena também afirmou que o isolamento pode prejudicar a manutenção da aldeia neste momento. “Precisamos abastecer as casas de alimentação e medicação. Era para receber agora, mas ficou impedido as pessoas irem para as cidades para receber as suas compras. Foi uma notícia muito triste. Consideramos isso uma discriminação, a lei tem que valer para todos, não só para índios. Tem muitos brancos contaminados rodando livre e nós estamos confinados”.
O que diz o município
A Secretaria de Saúde de Formoso informou que durante as reuniões que decidiram pelo isolamento dos indígenas estiveram presentes o cacique de uma das aldeias e o presidente da Câmara de Vereadores da cidade, que também é indígena.
Disse também que está montando uma estratégia para que os indígenas possam receber seus pagamentos e fazer suas compras em dias não comerciais, de forma que não tenha contato entre pessoas de aldeias diferentes.
Entenda
Um surto de Covid-19 entre indígenas que vivem em aldeias de Formoso do Araguaia, no sul do Tocantins, foi notificado neste último fim de semana. Segundo o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), não houve mortes nem casos graves.
De acordo com o município, foram 78 confirmações no sábado (27) e no domingo (28) o número saltou para 81 indígenas infectados. A região de Formoso do Araguaia e municípios vizinhos abriga um dos maiores territórios indígenas do estado, com 1.825 indígenas. Na área existem aldeias dos povos Javaé, Karajá e Avá-canoeiro.
Em 2019, a Justiça Federal, inclusive, restringiu o acesso a uma área de mata da Ilha do Bananal, onde foram avistados indígenas que vivem isolados. A ilha abrange os territórios de cinco municípios, entre eles Formoso do Araguaia.
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