“O Ironman salvou minha vida”, diz David Grinberg

O esporte sempre fez parte da minha vida. Na infância, ia à escola e depois ao clube, onde praticava quatro modalidades por dia. Mais velho, eu me interessei pela natação. Fui aperfeiçoando, virei federado. Na vida adulta, a atividade física passou a ser uma válvula de escape, o momento em que podia relaxar. Virou a minha terapia. Com o passar do tempo, fui atraído por um esporte nem tão comum: o triatlo de distâncias longas. Ele exige esforço, dedicação. Passei a acordar às 4h30 da manhã todos os dias para treinar. Minha vontade era competir, e eu faria tudo que estivesse ao meu alcance para conseguir. Em maio de 2018, completei o meu primeiro Ironman, a prova mais temida do esporte mundial. Foi uma grande emoção.

Mas tudo mudou menos de um mês após cruzar a linha de chegada. Tive um desmaio em casa, bati a cabeça e fui para o hospital fazer uma radiografia. Estava com meus pais e minha mulher no quarto, esperando o resultado dos exames, quando um médico entrou e, de supetão, anunciou que eu tinha câncer. Havia manchas no meu pescoço, estômago e abdômen. Descobri que eram linfomas não ­Hodgkin. Com o choque da notícia, tive uma parada cardíaca. Meu coração parou por onze segundos. Por sorte, meu pai, cardiologista, estava presente e, rapidamente, iniciou as massagens em meu peito.

Lembro de pensar: por que eu? Um homem saudável, esportista, de apenas 39 anos. Minha vida estava chegando ao fim? Enquanto essas perguntas me angustiavam, tive a sorte de contar com um médico incrível. “Não aceito nada menos do que a cura”, ele falou. “Agora você terá de disputar outro Ironman, só que de outro tipo.” Eu deveria ser resistente, ter disciplina e foco. De certa maneira, era tudo o que o Ironman havia me ensinado. Eu já conhecia a dor, sabia como é ter de me privar de muitas coisas em nome de um bem maior. Ter corrido o Ironman salvou a minha vida.

Fui internado em junho e tive a última alta em novembro de 2018. Nesse período, fui tratado com um coquetel de antibióticos, passei por seis ciclos de quimioterapia, tomei injeções para estimular a medula óssea e, por fim, enfrentei o transplante de medula. Para fazê-lo, tive de ficar completamente isolado e, assim, não correr o risco de contrair alguma doença. É curioso isso. De certa forma, o distanciamento social pelo qual estamos passando durante a crise do coronavírus também é familiar para mim. Ouso dizer que tive uma das fases mais felizes de minha vida durante os cinco meses de hospital. Sei que é paradoxal: a internação envolve dores, medos, remédios, tratamentos incômodos. Mas o carinho e a presença das pessoas que amo tiveram efeitos gigantescos e me ajudaram a enfrentar a doença. Isso fez toda diferença.

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Tenho alguns recados para quem está enfrentando um grande desafio agora. Em primeiro lugar, confie nos médicos. Em segundo, busque formas de transformar a angústia diante do desconhecido em algo próximo à sua realidade. Uma possibilidade é se apoiar em hobbies ou interesses, como eu fiz com o Ironman. Por último, não se torture com culpa. Lute. Procure aprender. Estou em remissão desde janeiro de 2019. De lá para cá, escrevi um livro, chamado Rotina de Ferro, sobre a minha experiência. Não é de autoajuda, mas espero que inspire as pessoas em situações similares. O livro foi lançado há alguns dias e eu doei 100% dos direitos autorais à Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia. Não demorei para retornar ao esporte. No meio do ano passado, participei de outro Ironman, dessa vez de meia distância. Retomei a natação na Argentina, onde moro, e venci um campeonato de 3 quilômetros. Estou de volta e a todo o vapor.

Depoimento dado a Sabrina Brito

Publicado em VEJA de 1 de julho de 2020, edição nº 2693

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Autor: Sabrina Brito

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