Antropóloga explica nuances da extrema-direita no Brasil

Da redação
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Em meio a um governo de direita, pautas acerca do assunto extremismo vêm a tona a cada declaração do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e de seus ministros, como o da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e da Economia, Paulo Guedes.

Pensando nisso, a antropóloga Isabela Kalil disserta sobre a forma que o extremismo de direita age no Brasil. Em entrevista ao portal Nexo, ela fala sobre o tema, entrelaçando desde fatos ocorridos em 2013 até os dias atuais. Confira:

Há pressão entre os eleitores mais extremos de Jair Bolsonaro por mais radicalização? Que efeito isso pode ter a médio e longo prazo? 

Isabela Oliveira Kalil: Há pressão, mas não somente de uma forma explícita. Isso está presente quando eleitores mais engajados começam a se desinteressar pela figura do presidente e passam a elogiar ou dar mais atenção ao ministro Sergio Moro, por exemplo.

Não me parece aleatório que recentemente Bolsonaro tenha exposto Moro a situações embaraçosas. Para lembrar as principais, em uma ele faz uma brincadeira insinuando em suas palavras um “troca-troca”, jogando com uma possível relação íntima entre Moro e outro ministro. Em outra, insinua que Moro teria escrito “Lula livre” em uma camiseta. As duas situações ajudam a repor a centralidade de Bolsonaro no próprio campo da direita.

A primeira tem como alvo a masculinidade de Moro e a segunda sua fidelidade política e partidária. De certa forma, ao apelar para a radicalidade do tempo da campanha, Bolsonaro delimita a margem de crescimento do apoio a outras potenciais figuras do seu espectro político, aliados e ex-aliados.

Ele domina a cena política como o homem mais forte (e a questão da masculinidade é central), mesmo quando esta força se mostra desmedida ou inadequada. Com a noção que a gente tem trabalhado de violência, o mais grave é banalizar performances e discursos que não poderiam ser banalizados. Existem coisas que vão acontecendo que seriam inaceitáveis há um tempo. Quando mais pessoas começam a performar isso de forma recorrente, isso muda o nosso limiar de violência e o que a gente considera socialmente aceitável. Isso é o mais grave.

A antropóloga Isabela Oliveira Kalil. Foto: Reprodução/YouTube

Como segmentos mais radicais se diferenciam de demais eleitores que podem estar insatisfeitos? 

Isabela Oliveira Kalil: Essa questão é muito relevante porque essa base mais radical se diferencia muito dos demais eleitores. O que está em jogo ao agradar sua base mais radical vai para muito além do voto ou a aprovação do eleitorado. Sua base mais radical literalmente trabalha para Bolsonaro, cria conteúdo, vídeos, memes, fake news, propagam os conteúdos, moderam fóruns, organizam eventos, administram grupos de zap, programam bots, ameaçam os opositores indicados pelo Bolsonaro, atacam publicamente alvos como ex-aliados. A questão não é necessariamente a quantidade desses eleitores, mas sua relevância nestas disputas. Sem esses eleitores, Bolsonaro não teria construído as bases da sua campanha. Ele precisa desse segmento para continuar no poder e mirar o futuro.

Como é a visão desses segmentos mais radicais sobre as instituições? 

Isabela Oliveira Kalil: As visões são variadas, mas eu resumiria em uma máxima “menos partidos, mais Brasil”. Ou ainda na expressão “Meu Partido sou eu”, em substituição ao “Meu Partido é o Brasil”. Se a hipermasculinidade é um elemento importante mobilizado por Bolsonaro, o hiperindividualismo está muito presente nos seus apoiadores. Mas, apesar de variadas, é preocupante o movimento recente que pede a destituição de todos os ministros do Supremo Tribunal Federal, ou mesmo o fim da Suprema Corte e ataques individualizados que insinuam a violência contra eles.

De que forma esses grupos lidam com correntes de pensamento opostas? 

Isabela Oliveira Kalil: Os grupos mais radicais operam uma verdadeira máquina de propaganda e intimidação a favor de Bolsonaro. Esses grupos não representam uma violência de Estado exatamente como já tivemos historicamente, são pessoas da sociedade civil ameaçando pessoas e instituições. Com isso, não é preciso que se tenha uma lei específica com sanções para opiniões contrárias. Basta ver o número crescente de ataques e agressões contra jornalistas e figuras públicas que está formado o terreno fértil para um tipo de censura informal, que em parte é e não é do governo.

Até que ponto esses segmentos são atores relevantes no cenário político? Qual o limite na sua atuação? 

Isabela Oliveira Kalil: São importantes não apenas pelo número, mas pela forma de atuação. O que temos estudado mais recentemente é como tem se dado a interação do que chamamos na antropologia de humanos e não humanos. Ou seja, temos olhado para a interação entre pessoas e bots [perfis automatizados que tentam influenciar o debate em redes sociais], por exemplo. Este é um terreno que ainda teremos que investigar mais para compreender os limites destas interações e os riscos disso para a democracia.

Como as falas de autoridades podem influenciar reações do público?

Isabela Oliveira Kalil: Há um efeito importante na performance de Bolsonaro que oferece uma espécie de licença para que a violência se banalize e se reproduza. Se ele que é o chefe de Estado e uma liderança pode se permitir certas coisas, o cidadão comum também pode. E esse efeito tende a se perpetuar em cadeia, como uma espécie de eco que ressoa na sociedade, por mais absurdo ou ensurdecedor que sejam esses sons.

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