Depois das entrevistas de Alckmin e Marina, está claro: o candidato da Globo-Lava Jato é Bolsonaro: sem fazer alianças espúrias, né?

Começa hoje o horário eleitoral no rádio e na televisão. O tucano Geraldo Alckmin terá 44% do tempo em cada um dos dois blocos de 12min30s e contará com 434 inserções de 30 segundos ao longo da programação até a eleição, uma média 14 por dia. Em segundo lugar, mas muito atrás, está o PT, com 2min23s e 189 inserções. Jair Bolsonaro (PSL) e Marina Silva (Rede), que ocupam o primeiro e o segundo lugares quando o Lula não parece na disputa, têm, respectivamente 8s e 21s por bloco. Ela terá 29 inserções ao longo de toda a campanha; ele, apenas 11. Veja quadro acima, com parte do infográfico publico pelo G1.

Por que existe tal disparidade? Além do PSDB, Alckmin conta com outros oito partidos em sua aliança: PRB, PP, PTB, PR, PPS, DEM, PSD e SDD. Lula conseguiu juntar o PCdoB e o PROS. Bolsonaro, do nanico PSL, aliou-se ao ainda mais mirrado PRTB, do sempre eloquente Levy Fidelix. E Marina Silva, do minúsculo Rede, se somou ao também pequenino PV. E é neste ponto que quero convidá-los a uma reflexão.

Quem assistiu à jornada de entrevistas do Jornal Nacional — Ciro Gomes, Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin e Marina Silva — ficou com a clara impressão de que o problema mais grave da política brasileira são as alianças partidárias. Num país com mais de três dezenas de legendas representadas no Congresso; que tem uma Constituição que foi pensada para um regime parlamentarista, mas que é presidencialista por acidente de percurso; que praticamente impôs ao governante o presidencialismo de coalizão, entendendo por este nome não só a composição das agremiações, mas também o compartilhamento do poder entre Executivo e Legislativo… Bem, meus caros, num país assim, somos obrigados a ouvir seguidas catilinárias contra aqueles que optam por alianças partidárias.

É uma insanidade.

Desde a redemocratização, dois presidentes tentaram governar sem o apoio do Congresso ou, se quiserem, vendo-o esvair-se sem conseguir conter a sangria: Fernando Collor e Dilma Rousseff. O resultado é de todos conhecido. Considerar que as alianças são um vício da velha política não é apenas estúpido porque afronta o bom senso. Trata-se também de uma temeridade porque está a pedir que o presidente se comporte como um caudilho, o que é caminho certo para a crise.

E foi essa, infelizmente, a abordagem feita no “Jornal Nacional” com os presidenciáveis que foram entrevistados. E de maneira muito dura, injustificadamente agressiva. Quem mais apanhou foi justamente o candidato que mais cuidou das providências prévias em favor da governabilidade: Geraldo Alckmin. Até Ciro Gomes (PDT), que conseguiu apenas o apoio do Avante e contará com míseros 38 segundos em cada bloco da propaganda e 51 inserções ao longo de toda a campanha, teve de responder por que buscou o apoio de partidos do chamado Centrão.

No que me parece uma escolha editorial de um equívoco brutal, e isto nada tem a ver com os entrevistadores, que cumpriam uma tarefa, Marina Silva, muito mais nanica na composição partidária do que os votos cativos que tem — conta apenas com o apoio do PV — se viu constrangida a explicar alianças regionais com outras legendas — suposto mal que marca também o PDT de Ciro.

Ora, dada essa configuração, o único candidato, então, que teria feito a escolha moralmente adequada seria mesmo o sr. Jair Bolsonaro. Segundo os critérios abraçados, escolhe, de saída, o caminho da retidão moral quem não consegue se coligar com ninguém, sempre lembrando que o PR namorou o capitão reformado até a undécima hora. E só não se chegou a um acordo por razões, digamos, familiares. Flávio Bolsonaro, candidato ao Senado pelo Rio, se negou a apoiar o PR fluminense.

Qual é a tese que está na raiz do brutal equívoco? Partidos que contam com pessoas investigadas pela Lava Jato — pouco importando se o que se tem é inquérito, denúncia, denúncia aceita ou condenação — estariam irremediavelmente comprometidos. Bem, a ser assim, pergunta-se: o que vem depois? Ora, quem não serve como companhia para ganhar eleição não servirá como parceiro para governar, certo? Em que universo esse vitorioso impoluto buscaria os varões e a varoas de Plutarco para compor a administração?

Com a devida vênia, a tese é burra. A política se torna um tribunal da Lava Jato em que todos são réus, inclusive os que não são.

O inconveniente adicional é que o discurso contra tudo o que está aí e de ódio à política vem acompanhado de outros ódios. Não havendo como lacrar contra Bolsonaro no quesito “alianças políticas”, já que ele não as tem, buscou-se encurralá-lo nas áreas dos costumes e dos direitos humanos, como se a defesa irracional de certos pressupostos se intimidasse diante de algum apelo racional. Não se intimida. Para demonstrar que nada tem contra a mulher, que não é misógino e que pensa na sua proteção, o preclaro defende que ela ande com uma arma na mão. E não adianta o interlocutor arregalar os olhos. Afinal, ele não está coligado com ninguém. É puro. Se é, segundo os critérios, inclusive, de quem o entrevista, pode falar o que bem entender. E fala!

A pauta de reformas para que o país saia do buraco é gigantesca. Imaginar que um presidente da República consiga se impor ao Congresso na base da cara feia, especialmente quando joga abertamente para dividir o país, não para uni-lo, é um delírio. A cada vez se demonizam políticos e partidos, sem matizes, o que se faz é clamar por esse demiurgo. É o momento em que, em nome do combate à corrupção, troca-se a democracia, com todas as suas dificuldades, pelo murro na mesa.

Quando foi que isso deu certo no país?

Não! Não deu certo nem na ditadura militar.

Saiba mais. Continue lendo no blog do Reinaldo Azevedo

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