Candidato novo

J.R. Guzzo (publicado no Blog Fatos)

Desde o começo da disputa eleitoral para sucessão do presidente Michel Temer, o candidato mais natural, lógico e viável para se contrapor às forças do ex-presidente Lula, solto ou preso, e mais a turma toda que tenta copiá-lo, tem sido o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Por uma destas esquisitices comuns à política brasileira, porém, até agora o seu nome foi o menos falado entre os 1.500 candidatos à Presidência da República, reais ou imaginários, sobreviventes ou já sepultados, que apareceram até o presente momento na campanha. Neste meio tempo muito já se discutiu, com toda a seriedade do mundo, a “canditatura” do ex-ministro Joaquim Barbosa. Alguém ainda se lembra da “candidatura” do apresentador de televisão Luciano Huck? Discute-se diariamente, até hoje, cada sílaba dita por Marina Silva, que consegue desfilar há meses sua candidatura presidencial na mídia sem ter um único deputado na sua “base de apoio”.  Até o próprio Michel Temer, imaginem se é possível, foi tido como candidato à sua própria sucessão. Só não se falava do único candidato de verdade para disputar a eleição em nome dos brasileiros que não querem Lula e os seus etcs. Ou, nas raras vezes em que se dizia alguma coisa a respeito, era para informar que sua candidatura estava para se desfazer, em meio a mais uma crise terminal.

Passa o tempo e, como seria inevitável acontecer, o nome de Alckmin enfim aparece com o tamanho que sempre teve, ao se constatar as realidades de uma eleição presidencial brasileira: a possibilidade, para ele, de ter cerca de 50% do tempo de propaganda obrigatória na TV, o apoio da caldeirada de partidos que existem unicamente para entrar no governo e a força de gravidade dos que só pulam na disputa depois de calcularem com cuidado quem tem mais chance de ganhar. Pronto: Geraldo Alckmin, que não existia, passou a existir como “o homem do segundo turno” (é dado como fato científico pela  crônica política que a disputa será entre “Lula” e algum outro qualquer) e, como tal, começará a ter vida no noticiário. Breve aqui, portanto, um novo alvo para a artilharia da esquerda nacional ─ até agora concentrada no deputado Jair Bolsonaro, o inimigo mais evidente e, pelo que dizem, mais duro de roer. Mais: aguardem o fogo cerrado dos “liberais civilizados”, modelo tucano de luxo. Já começaram as conversas de que Alckmin não é “anti-Lula” o suficiente; que pode trazer de volta o “imposto sindical”; que gosta da Petrobras mais do que deveria, etc.

Ficam todos escandalizados, de repente, pelo fato de Alckmin ter aceito o apoio de partidos “não-éticos”. Que horror, não é mesmo? Quem jamais ouviu falar que uma coisa dessas tenha acontecido algum dia na política brasileira? Há outros crimes, além desses. Alckmin não tem ideias brilhantes. Não tem posições firmes. Não tem uma “visão do Brasil e do mundo”. Não dá murro na mesa. Não é engraçado. Não grita. É como se os outros candidatos fossem gigantes da política; é como se a sucessão de Michel Temer estivesse sendo disputada entre Winston Churchill, Franklin Roosevelt e Santo Antonio de Pádua. Votar em Geraldo Alckmin equivaleria a votar contra algum desses portentos ─ e não contra os que estão aí na vida real, incluindo o Homem do Aerotrem.

Lula, o PT e a sua coleção de minions, mais os antilulistas que se imaginam europeus, avançados e fiéis à uma “agenda social” apostaram tudo, até agora, no combate à Jair Bolsonaro ─ na sua maneira de ver as coisas, um adversário “pronto”, odiado pelos comentaristas políticos, por toda a mídia e por quem se considera “contra os militares”, seja isso lá o que for. De tanto falar nele, construíram o fantasma Bolsonaro. Esqueceram que Alckmin existia. Agora terão de vencer os dois.

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Fonte: Revista Veja

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