Rico em propriedades medicinais, leite de dromedária pode ajudar nos sintomas do autismo

“Nossa primeira refeição é leite de dromedária com tâmaras”. Ouvi essa frase no deserto do Saara na Tunísia em 1983 e nunca mais esqueci. O beduíno insistiu que era um alimento “forte e nutritivo” e que ele aguentava todo o trabalho da manhã apenas com uma porção. Se passei a ser um ávido comedor da fruta que cresce nas palmeiras saarianas, nunca cheguei a provar o leite de nenhum camelídeo, seja da dromedária de uma corcunda, do camelo bacteriano mongol de duas corcovas ou até mesmo das lhamas sul-americanas.

Meu batismo finalmente aconteceu no Rajastão, uma província no oeste da Índia que alberga uma população razoável de dromedários aos arredores do deserto do Thar. Os animais são cuidados por homens portando imponentes turbantes vermelhos. Eles são os raikas, a etnia responsável pela sobrevivência dos dromedários na Índia.

Na complexa sociedade indiana, são os raikas que cuidam dos rebanhos de dromedários no Rajastão (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

 

Como tudo na Índia, há uma história mística para confirmar a missão nobre dos raikas. Segundo uma lenda do Rajastão, enquanto deus Shiva meditava, sua esposa Parvati resolveu moldar um animalzinho de barro. Mas o bicho tinha cinco pernas e, quando a deusa pediu à Shiva que desse vida ao animal, este se negou por saber que a forma estranha traria problemas. Parvati insistiu e, então, Shiva transformou a quinta perna na corcunda do dromedário. Mesmo assim, o animal recém-formado era desobediente. Parvati implorou que Shiva criasse um homem para tomar conta do dromedário. A divindade misturou poeira e um pedaço de sua pele e assim gerou o primeiro raika.

Encampados por esse destino divino, os raikas conviveram pacificamente com outras etnias indianas durante séculos. Mesmo sendo pastoralistas, criaram parcerias com agricultores que cediam suas terras durante alguns dias em troca do esterco que os dromedários depositavam para fertilizar as áreas a serem plantadas.

Os raikas vagavam, dependendo da estação do ano, entre planícies desérticas, florestas e terrenos férteis. Geralmente, o rebanho – ou cáfila, para ser exato – era composto por algumas dezenas de fêmeas, apenas um macho adulto, dois machos mais jovens e, dependendo da época, os filhotes da safra. A tradição raika proibia a venda de fêmeas pois estas, com uma gestação longa de 13 meses, representavam a única opção para o crescimento do rebanho. Os raikas também não comercializavam camelos para o abate. Os machos que partiam do rebanho deveriam servir apenas para transportar carroças ou arar a terra. Afinal, os raikas eram a casta protetora dos dromedários.

Um grupo de cameleiros raikas com seus animais na região Kumbhalgarh, no Rajastão (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

 

O aumento contínuo da população, a demanda de novas terras para o agronegócio e a diminuição das áreas de pastagens acabaram impactando a vida tradicional raika e o número de dromedários diminuiu consideravelmente nas últimas décadas. De um milhão de animais que existiam nos anos 1990, hoje há apenas 200 mil. Sem cáfila e sem possibilidades de renda, a nova geração de raikas foi obrigada a procurar emprego nas cidades e a abandonar o ofício determinado por Shiva há milênios.

Mas a sociedade civil em uma Índia que gerou Mahatma Gandhi é ativa e os apelos tímidos dos raikas foram ouvidos por estudiosos e autoridades. O governo do Rajastão, para melhor proteger o dromedário, definiu que este seria o novo animal oficial do Estado.

As notícias cruzaram o continente e uma veterinária alemã, que havia se enamorado por camelos na Jordânia, resolveu ajudar a minoria étnica e vem dedicando as últimas duas décadas a melhorar as condições sociais dos raikas. A Dra. Ilse Köhler-Rollefson, além de co-fundar uma ONG local para dar tratamento veterinário a dromedários doentes, também ajudou a comunidade a criar Camel Charisma, uma fábrica de laticínios que produz algumas centenas de litros de leite de dromedária por semana. O leite é pasteurizado, refrigerado, congelado e depois transportado a pontos de vendas em cidades como Delhi e Mumbai.

A veterinária Dra. Ilse Köhler-Rollefson trocou a Alemanha pelo Rajastão e passou a se dedicar às cáfilas de dromedários  (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

 

O líquido retirado das tetas da dromedária há poucos minutos ainda estava quente quando me foi oferecido em um “barquinho” formado por uma folha da planta aak. O líquido – mais branco que o leite de vaca – é suficiente para apenas um gole. Engulo com uma pitada de receio e sinto que seu sabor é mais salgado que o leite de vaca.

Verbalizo minha sensação que logo é explicada. “Os raikas dão sal aos dromedários uma vez por mês, geralmente na Lua Nova. E ontem foi o dia que os animais comeram sal. Por isso, o leite está mais salgado do que o normal”, afirma Ilse. “Mas o gosto do leite varia muito conforme a dieta, podendo ser doce numa semana e mais amargo na seguinte.” Os dromedários de Kumbhalgarh se alimentam com 36 variedades de plantas durante o ano, quase todas com propriedades medicinais.

O filhote da dromedária é sempre o primeiro a mamar nas tetas da mãe. Sem sua presença, o leite não desce  (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

 

O leite armazenado no pote chamado chada é depois distribuído em copinhos feitos com a folha da planta aak  (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

 

A qualidade do leite de dromedária foi analisado em diversos países e parece ter nítidas vantagens quando comparado com o de vaca. Além de ser rico em proteínas, vitamina B1 e minerais, o leite de dromedária é melhor digerido pelos humanos, pode evitar a intolerância à lactose, aumentar o colesterol HDL (o bom) e abaixar o nível de açúcar no sangue, o que é positivo em caso de diabetes pois reduz a necessidade de tomar insulina.

Porém a qualidade mais importante seria a propriedade de diminuir os sintomas de crianças autistas. Um estudo publicado em 2013 pelo International Journal of Human Deveopment relaciona o consumo de leite de dromedária com melhoras consideráveis no estado de saúde dos pacientes da síndrome. Um artigo de 2014 no World Journal of Pharmaceutical Sciences cita as propriedades imunológicas, antidiabéticas e bactericidas do leite de dromedária.

A norte-americana Christina Adams, mãe de um menino autista, é uma importante ativista a favor do consumo de leite de dromedária. Quando soube que seu filho Jonah poderia ter uma pequena chance de melhorar sua saúde tomando a bebida, ela mandou buscar o precioso leite em Israel. Depois de vencer diversas barreiras burocráticas e logísticas, Jonah conseguiu beber seu primeiro meio copo de leite em 2007, quando tinha 9 anos. “No dia seguinte, ele conseguiu falar com mais facilidade, tomar seu café da manhã sozinho e fazer contato olho-a-olho, o que era bem difícil até então”, afirma Christina.

As 48 garrafas de leite congelado, enviadas de Israel a cada dois meses, consumiam o orçamento de Christina. Mas valia o esforço: ela notou que o desempenho de Jonah na escola melhorava, assim como seu vocabulário e seu comportamento em casa. “Felizmente, em 2011, o leite de dromedária passou a ser produzido nos Estados Unidos. Decidi então me dedicar à causa, escrevendo artigos, produzindo vídeos e dando palestras à médicos, pais, fazendeiros e cientistas”, diz Christina, que está finalizando um livro sobre o assunto, incluindo sua última visita ao Rajastão.

Hoje com 20 anos, Jonah possui um emprego fixo renovando casas, consegue pilotar barcos, está tirando carteira de motorista e dedica seu tempo livre ao desenho. E continua a tomar um milk-shake com leite de dromedária uma vez ou outra.

Christina Adams na fazenda Oasis, na Califórnia, onde hoje há uma fábrica de laticínios de leite de dromedária  (Foto: © Christina Adams)

 

De volta ao Rajastão, depois de conversar com os homens raikas, visitamos a sede da ong Camel Charisma para conhecer os produtos manufaturados pelas mulheres da comunidade. A surpresa foi deliciosa: um café da manhã tradicional indiano com uma coleção de queijos cremosos (cream cheese) de diversos sabores, como alho e pimenta negra.

“Não conseguimos preparar um queijo mais firme ou com mais textura, pois o leite de dromedária não coagula facilmente. Também não é possível fabricar iogurte”, afirma Ilse. “Mas o queijo cremoso é muito delicado.” Uma chef brasileira, também presente no café da manhã, dá seu veredito. “Parece queijo de cabra, só que mais suave e sem o cheiro forte”, diz Teresa Corção.

Alguns dos sabores do queijo cremoso (cream cheese) fabricados por Camel Charisma no Rajastão  (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

 

“Não queremos promover o leite de dromedária como mais um alimento milagroso, mas já conhecemos seus impactos positivos”, diz a veterinária Ilse Köhler-Rollefson. “Agora é tratar de aumentar a produção dos laticínios para que a população de dromedários no Rajastão seja economicamente sustentável.”

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Autor: Da redação de Época

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