“Casamento com robôs será legal em torno de 2050”, diz autor de Sexo com Robôs

Há 10 anos, David Levy, pesquisador britânico de inteligência artificial, publicou o best seller Amor e Sexo com Robôs. Para explicar a emergência de tecnologias sexuais na primeira década dos anos 2000, começou seu livro pela psicologia infantil. Foi à teoria do objeto transicional, do psicanalista inglês Donald Winnicott, que na década de 50 escreveu sobre a importância dos objetos que a criança adota à medida que vai rompendo com o seio da mãe, chupetas e bonecos que auxiliam na experiência com o mundo externo. Depois, Levy explorou as motivações psicológicas de amar, de ter um animal de estimação, ter um objeto eletrônico, de casar, de gostar de sexo e de pagar por sexo. Por fim, traçou um cenário em que a aceitação de relações sexuais com robôs até parece plausível. Apesar de soar otimista quando fala sobre a relação afetiva entre homem e máquina, Levy se considera realista. Acredita que o casamento legal com robôs será uma realidade em 30 anos (2017 foi o ano em que Sophia, uma robô da Arábia Saudita, ganhou cidadania).

>> David Levy, para a ÉPOCA, em 2007

Desde o lançamento do livro, a indústria de robôs sexuais evoluiu, mas o comércio desses produtos não chegou a um patamar convencional. Já o apego com personagens virtuais se intensificou para muito além do Tamagotchi, cujo único risco que apresentava era morrer de fome e gerar culpa nos donos desnaturados. Namoradas virtuais são realidade para jovens japoneses. No país, emerge o movimento dos otaku, os “homens herbívoros”, vidrados em computador e sem interesse por sexo. 

As principais empresas que trabalham com bonecas eróticas de silicone já planejam incluir em seu portfólio bonecas com inteligência artificial, capazes de interagir com seus donos. A Abyss Creation, da Califórnia, é uma das principais do ramo. No ano que vem, deve lançar a Real Doll, uma das mais realistas já fabricadas no mundo. Levy acertou sobre essa tendência. Em entrevista a ÉPOCA, o pesquisador, que está com viagem marcada para o Rio de Janeiro, onde participará do Wired Festival, em dezembro, reafirma parte de suas previsões, e lança outras.   

David Levy (Foto: Divulgação)

 

ÉPOCA – Depois de 10 anos de Amor e Sexo com Robôs, o que mudou na sua expectativa sobre a relação entre humanos e máquinas? O mundo aceitou o tema da forma que você imaginava?
David Levy – Minha expectativa é quase a mesma de dez anos atrás. Especificamente, ainda acredito que as pessoas irão se apaixonar por robôs a ponto de casar com eles, e esse tipo de casamento será considerado legal em alguns países em torno de 2050. Ainda acredito que as primeiras uniões devem ocorrer em Massachusetts, nos Estados Unidos. A imprensa registrou poucos casos de casamentos com robôs até agora. Recentemente, houve um na China, mas minha previsão era específica sobre casamentos considerados legais. Há 10 anos, previ que a Abyss Creations, fabricante da boneca sexual Realdoll, seria a primeira empresa a lançar um modo de se fazer sexo com robôs, e que seria entre dois e três anos. Acertei sobre a empresa, mas levou mais tempo do que eu esperava. No momento, estamos “atrasados” em relação à minha expectativa, mas diante do nível de interesse público no assunto e do trabalho de outras companhias, acho que soluções surgirão muito mais rápido a partir do momento em que a Abyss lançar seu produto, em 2018. Sobre o conceito: pensei que a sociedade começaria a aceitá-lo à medida que os primeiros robôs sexuais estivessem no mercado, mas a porcentagem de pessoas que respondem a pesquisas dizendo que conseguem se imaginar fazendo sexo com robôs cresceu significamente desde 2007, mesmo que não haja um produto comercial muito adequado.

ÉPOCA – Por que o senhor acredita que o casamento legal ocorra em 2050?
Levy –
Para que as pessoas sintam-se suficientemente atraídas por robôs a ponto de quererem casar com eles, será necessário produzir robôs muito humanos, que compreendam exatamente o que dizemos e que possam realizar conversas ilimitadas, informativas, amorosas e divertidas. Acredito que essas duas tarefas – o reconhecimento perfeito de fala e a habilidade de conversação excelente – serão concluídas por pesquisadores de inteligência artificial até 2050.

ÉPOCA – Por que Massachusetts?
Levy –
Por que há a combinação de pensamento liberal (Massachusetts, juntamente com a Califórnia, é um dos estados mais liberais dos EUA) e de muita pesquisa e desenvolvimento de robótica na região, no MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts] e em inúmeras organizações comerciais.

ÉPOCA – Há uma polêmica em torno da Roxxxy, uma boneca à venda na internet em que uma das funções resiste ao sexo (o que seria uma espécie de estupro robótico). Esse tipo de alternativa não reforçará preconceitos sexistas? 
Levy –
Primeiro, devo explicar que, na minha opinião, a Roxxy não é um produto real. Em 2010, conversei com Douglas Hines, o desenvolverdor dela, por cerca de uma hora. Rapidamente entendi que ele não estava falando a verdade. Aconselhei a todos os jornalistas que me perguntaram sobre este produto para que buscassem uma demonstração real da Roxxxy, mas até agora nenhuma pessoa que eu conheço viu a boneca. Há alguns anos, escrevi um artigo, “Roxxxy, o robô sexual – real ou falso”, que foi publicado na revista científica Lovotics. Mas não deixa de ser um assunto bem controverso. Alguns acreditam que, ao usar o robô sexual dessa forma [não consentida], é provável que replique um comportamento abusivo nas relações humanas. Outros acreditam que os robôs sexuais podem ajudar a curar pessoas com tendências a relacionamentos abusivos. Estou no segundo grupo, mas precisaremos de muito tempo para os robôs sexuais sejam comuns no mundo e os psicólogos possam decidir qual comportamento é o mais provável.

>> Libere os mamilos, Facebook

ÉPOCA – No Direito, discute-se a personalidade jurídica dos robôs. O debate sobre sexo e consentimento é expressivo?
Levy –
Sim. Tais discussões já ocorrem há bastante tempo, particularmente no mundo jurídico. O debate é sobre os direitos legais e as responsabilidades dos robôs. É um campo de estudo muito interessante. Acredito que os advogados e, em particular, os legisladores, trabalharão muito nos próximos anos para responder a diversas questões que certamente surgirão à medida que os robôs sexuais se tornarem um produto de consumo convencional. É cedo para tirar qualquer conclusão definitiva.

ÉPOCA – Cerca de 2 mil bonecos sexuais são vendidos por ano no Japão. Por que algumas pessoas acham atraente a ideia de um parceiro sem autonomia?
Levy –
Em alguns casos, é puramente por orgasmo. Em outros, é um sentimento de carinho e até mesmo amor pela boneca, por exemplo, como mostrado no filme A Garota Ideal [filme em que Ryan Gosling leva a sério uma boneca de plástico]. 

ÉPOCA – Estudos mostram que a geração que nasceu com smartphones está menos propensa a riscos relacionados a sexo e drogas. Por outro lado, sofre mais de ansiedade e depressão. Em alguns casos, as relações são puramente digitais. Você não vê a indústria de sexo robô como parte desta distopia?
Levy –
A indústria do sexo robótico trará grandes mudanças na forma como vemos todas as nossas relações amorosas e sexuais. Como você diz, a sociedade já foi alterada pelo advento do celular como um item de consumo escalável. Um excelente livro sobre este assunto é Alone Together, de Sherry Turkle, professor do MIT. Seu livro anterior, The Second Self, publicado pela primeira vez em 1984, também é uma leitura interessante. É muito cedo para tirarmos conclusões duradouras sobre os efeitos dos robôs sobre as relações humanas. Somente quando esses produtos estiveram amplamente disponíveis a preços acessíveis será possível que psicólogos e especialistas realizem pesquisas com grandes grupos de usuários. Até então, quase tudo é especulação. Não há casos suficientes para obtermos estatísticas confiáveis a serem coletadas. Faça a mesma pergunta em cinco ou 10 anos.

>>Adolescentes hiperconectados à internet conseguem se concentrar?

>> Quem é a geração Z?

ÉPOCA – Especialistas estão preocupados com a taxa de natalidade do Japão, que coloca problemas para o futuro da economia. Lá, os homens tem namoradas virtuais. O que você acha disso?
Levy –
O Japão enfrentará grandes distúrbios demográficos nas próximas décadas. Muitos idosos precisam ser atendidos, e não há pessoas mais novas para cuidarem dele corretamente. O governo japonês quer resolver esse problema com cuidadores robôs. Mas a tendência de a geração japonesa mais jovem evitar as relações sexuais humanas cria uma grande ameaça à taxa de natalidade. Os problemas são fáceis de ver, as soluções, menos.

ÉPOCA – A tecnologia permite a implementação de chips nos humanos. Como isso pode contribuir com conhecimento para a indústria de robôs sexuais?
Levy –
Há pesquisas sobre a pele artificial contendo múltiplos sensores, de modo que um robô possa sentir como seu usuário o toca e acaricia. Acho que a pesquisa nea área se multiplicará consideravelmente.

ÉPOCA – No que você está trabalhando agora?
Levy –
Por quase 40 anos, trabalhei no desenvolvimento de produtos eletrônicos de consumo, em particular para xadrez e outras atividades intelectuais. Também trabalhei em projetos sobre conversa entre homem e máquina. Ganhei o Prêmio Loebner, que é uma espécie de competição do Campeonato Mundial de software conversacional, duas vezes. Espero continuar trabalhando nas duas áreas.

ÉPOCA – Você se considera superotimista sobre a relação sexual com robôs?
Levy –
Me considero realista.

>> A inteligência artificial pode ser usada em ciberataques?

>> Computadores são racistas?

Leia mais…
Autor: Da redação de Época

Powered by WPeMatico

Compartilhe nas redes sociais:
Follow by Email
Facebook
Google+
http://reporter1.com.br/2017/11/13/casamento-com-robos-sera-legal-em-torno-de-2050-diz-autor-de-sexo-com-robos/
Twitter

Comentários

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *