Ufa! A Copa terá Messi!

Lionel Messi,jogador (Foto:  Diego Merino)

A bola vem de um chutão da defesa e cai na intermediária. Com o peito, Lionel Messi a subjuga com facilidade no gramado e inicia aquela arrancada que conhecemos. Dá cinco toques curtos, rápidos, tira dois zagueiros da jogada e, já dentro da área, percebe o goleiro adiantado. Chuta a bola entre o travessão e os braços esticados do coitado, que faz um esforço inútil para alcançá-la. São 17 minutos do segundo tempo e Messi decreta 3 a 1 da Argentina sobre o Equador. Três gols dele. A comemoração ensandecida que se seguiu, empilhando titulares, reservas e comissão técnica, foi um merecido desafogo. Pouco mais de uma hora antes, naquela noite de terça-feira (10), a seleção argentina entrava em campo na última rodada das Eliminatórias Sul-Americanas sob pressão. Precisava da vitória e de uma combinação de resultados para se classificar diretamente para a Copa do Mundo de 2018. Talvez tivesse de passar pelo vexame de disputar a repescagem, como em 1994. A depender dos resultados, podia ficar de fora. Mas aconteceu o melhor. Messi resolveu.

No vestiário, o herói da noite parecia possuído. Messi abandonou seu notório comedimento, subiu numa bancada e se juntou aos companheiros em cânticos que xingavam a imprensa e enalteciam o fanatismo dos “hinchas”, os apaixonados torcedores argentinos. Merecia. Realizara uma proeza digna de Romário, que fez dois gols na vitória contra o Uruguai, em 1993, e selou a classificação do Brasil para a Copa de 1994. Quem aprecia futebol – e não somente os “hinchas” argentinos – se sente aliviado. A atuação extraordinária do camisa 10 evitou algo inconcebível, mas factível até então: um Mundial sem Messi. Para felicidade (quase) geral, veremos em ação na Rússia a santíssima trindade da bola. Além de Messi, o português Cristiano Ronaldo, o antagonista com quem há dez anos ele divide o título de Melhor Jogador do Mundo, e Neymar, o penetra nesse olimpo, que felicitou seu ex-colega de Barcelona pela classificação.

Após a partida, os jogadores argentinos quebraram o gelo com a imprensa do país, que, por sua vez, louvou o Messi da seleção como jamais havia feito. Messias, gênio, descomunal foram alguns dos termos destacados nas manchetes. O diário Olé pareceu redundante, mas havia uma mensagem embutida em sua capa. “Messi é argentino”, em letras graúdas, lembrava que aquele camisa 10 sempre decisivo no Barcelona fez diferença na seleção. É uma guinada. Os argentinos sempre tiveram sentimentos conflitantes com Messi. Era como se existissem dois dele. Um é o orgulho nacional pelo que faz no Barça, onde é o símbolo de um time de sonhos. O outro sentimento é de desconfiança. Quando veste aquela bonita camisa alviceleste, a magia se dissipa e ele vira um fiasco. As estatísticas, numa leitura superficial, podem dar razão aos críticos. Mas os números do craque no Barcelona são sobrenaturais, o que torna qualquer comparação uma covardia. Messi acumula 30 títulos pelo clube ante apenas um pela seleção, a medalha de ouro na Olimpíada de 2008. É o maior artilheiro da história tanto do Barcelona quanto da seleção, mas com aproveitamentos díspares. Faz em média quase um gol por partida no clube (594/521), enquanto pela Argentina são necessários dois jogos para marcar (122/61). 

Messi e seus companheiros comemoram a classificação para a Copa (Foto:  Edgard Garrido/REUTERS)

Pesa contra Messi a falta de identificação com a pátria, por ter feito toda a carreira fora da Argentina, pois se mudou para a Catalunha aos 13 anos. É óbvio que o Barcelona deu mais recursos a Messi que a seleção de seu país, em termos de companheiros e técnicos. Como agravante, o atual camisa 10 ainda vive sob o espectro de uma divindade cultuada por seus compatriotas. Está sempre sendo espelhado a Diego Armando Maradona, corpo e alma da seleção argentina que conquistou a Copa de 1986. Desanimado com os questionamentos e com seus próprios resultados, Leo chegou a anunciar o fim de seu ciclo na seleção, após o vice-campeonato na Copa América no ano passado. Até Maradona pediu que os argentinos parassem de importunar Messi com a tal comparação descabida – afinal, o futebol, como a arte, não comporta comparações, rankings entre gênios. É bobagem, perda de tempo. Para sorte da Argentina, em menos de dois meses, Messi se acalmou e reconsiderou a decisão. Fez o que fez.

>> Em 2016, as cobranças a Messi após a derrota na final da Copa América

Melhor deixar de lado as comparações e tentar outra coisa, como entender o que faz de Messi um extraterrestre em campo, o que ele faz que outros não fazem. “Ele corre em alta velocidade com a bola próxima, colada no pé, o que é algo dificílimo. E ainda é capaz de mudar de direção para qualquer lado, sem desacelerar, e em cima do marcador, o que deixa o adversário sem reação”, afirma o ex-jogador Belletti, que jogou com Messi no Barcelona. “Messi tem um manancial de jogadas muito maior que os demais jogadores e usa a técnica sempre de forma objetiva, em direção ao gol. Uma arrancada dele sempre termina em chute ou passe para gol.” Messi é chamado de “gênio” por colegas de profissão, como Daniel Alves, sucessor de Belletti na lateral-direita do Barcelona. Recentemente, Daniel relatou um episódio. Em um treino sério, intenso, naquele Barcelona cheio de grandes jogadores, Messi fazia coisas que “desafiavam a lógica”. Passava pelos colegas, atravessava a defesa e arrematava como artilheiro. Mas Daniel se assustou mesmo quando viu que as duas chuteiras de Messi estavam desamarradas, como se ele estivesse numa brincadeira.

Messi corre em alta velocidade com a bola colada ao pé, o que é dificílimo, e ainda consegue mudar de direção para qualquer lado

Em oposição a seu estilo radiante de jogar, Messi leva uma vida trivial fora do campo. É casado com Antonella Roccuzzo, namorada desde os tempos de Rosário, onde cresceu, com quem tem dois filhos pequenos, Thiago e Mateo. Longe da bola, Messi se transforma em figura apagada, inexpressiva, unidimensional. É inimaginável uma rivalidade com Cristiano Ronaldo, um símbolo sexual. Tampouco goza do apetite festeiro de Neymar. Talvez só as tatuagens quebrem um pouco o habitual aspecto de monotonia. São sete desenhos ao todo. No mais, pouco fala e aparece, e jamais expressa opinião. Abriu uma exceção, ainda assim de apenas 15 minutos, para conversar com o jornalista Leonardo Faccio. Autor de uma biografia sobre o craque, Faccio chegou a uma conclusão óbvia: Messi se expressa por meio da bola.

>> Neymar I: o novo rei de Paris

Em uma rara entrevista, depois do jogo de terça-feira passada, Messi reconheceu a ansiedade que a seleção argentina viveu. O triunfo retirou toneladas de suas costas e permitiu que ganhasse a derradeira oportunidade de ser protagonista do título que todo jogador almeja. Na Copa da Rússia, ele estará com 31 anos. “O mais impressionante é como ele consegue manter o altíssimo nível por tanto tempo. Messi tem um anseio inesgotável por conquistas, e nisso a concorrência com Cristiano Ronaldo o estimula”, diz Belletti. “Muita gente exalta que o Cristiano se dedica muito à parte física, mas com o Messi é a mesma coisa. A intensidade de treino dele sempre foi absurda”, diz Belletti. “Messi não deve um Mundial para a Argentina. O futebol é que deve um Mundial a Messi”, afirmou Jorge Sampaoli, técnico da seleção argentina. Sorte de nós, os mortais comuns, que poderemos ver outra Copa do Mundo com Lionel Messi.

Powered by WPeMatico

Comentários

comentários

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: